Nasceu com 2,600Kg e muito choro a marcar todas as suas noites alvas.

Aos 3 anos, dando muitos saltos em cima da cama, pensava vir a ser bailarina.

Até aos 6 anos não foi à escola, estando em casa com a mãe numa liberdade criativa solidificada em muito afecto.

Aos 6 anos, entra amedrontada num colégio com uma Nossa Senhora de pedra no pátio. Considerou esta viragem na sua vida uma armadilha das fadas que tinha de enfrentar. E enfrentou, embora sempre a chorar, sempre perguntando ao professor se a iam mesmo buscar no final das aulas.

Estranhou o barulho das brincadeiras no recreio. O seu espírito era mais silencioso, mais de cristal.

Era uma menina contemplativa, serena, algo enigmática.

Quando os outros meninos, uma vez, lhe tiraram todos os lápis de cor, prosseguiu o desenho que estava a fazer com um único lápis de carvão. Quando uma freira, na biblioteca do colégio, lhe perguntou por que é que lia sempre o mesmo livro (Anita no Ballet), respondeu: "Porque um livro nunca acaba".

Fez ballet. Tinha medo de dizer o que pensava. Tinha medo de sentir.

Lia as suas redacções, em voz alta, no estrado da sala de aula para os seus colegas, inventando, no momento, novas palavras (para além das que já estavam escritas). Ninguém dava por nada!

Na Faculdade de Direito, idealizava a vida e, por isso, sempre gostou mais do Direito Natural do que do Direito Positivo.

A Filosofia sempre foi a sua voz interior mais forte. Uma forma de retirar da vida uma dimensão mais funda. Um batimento.

Perseguiu-a mais tarde num doutoramento. Nunca desistiu dela para que ela não desistisse de si.

A música é quase sempre ela que ordena a sua vida e a ordenação do seu coração em palavras!

A felicidade nunca a iludiu demasiado. Quando alguém a tenta mudar, perpetua mais fortemente a sua liberdade.

Gilda Nunes Barata